O número de incidentes aumentou 4% em comparação ao trimestre anterior e 17% em relação ao segundo trimestre de 2022. Ataques direcionados representam 78% do total. Os ataques cibernéticos bem-sucedidos às empresas costumam resultaram em vazamentos de informações confidenciais (67%) e interrupção das operações (44%). No segundo trimestre ocorreram vários vazamentos grandes de dados pessoais de usuários e ataques em grande escala que exploraram vulnerabilidades.
Alvo: produtos de transferência segura de dados
No primeiro trimestre, o grupo de ransomware Cl0p realizou uma extensa série de ataques corporativos, explorando uma vulnerabilidade de dia zero (CVE-2023-0669), no GoAnywhere MFT. No segundo trimestre, conseguiram explorar uma vulnerabilidade que tinham encontrado antes(CVE-2023-34362), em que era possível implantar SQL malicioso no MOVEit Transfer, um aplicativo de transferência de arquivos gerenciado (MFT) desenvolvido por Progress Software. O grupo Cl0p já tinha conhecimento das vulnerabilidades havia algum tempo, uma vez que já tinha tentado fazer coleta de dados dos servidores MOVEit comprometidos desde, pelo menos, abril de 2022.
Entre as vítimas, estavam os nomes bem conhecidos no setor de segurança cibernética. Por exemplo, a Gen Digital (Avast, CCleaner, Norton LifeLock) confirmou que uma parte dos dados pessoais de seus funcionários foi comprometida por causa do último ataque ao MOVEit. No momento da publicação deste texto, o grupo listou mais de 700 empresas no seu site de vazamentos como vítimas do ataque ao MOVEit, exigindo o pagamento de resgate .
Considerando o sucesso que o Cl0p obteve em explorar as vulnerabilidades de dia zero em softwares de transferência de arquivos gerenciados, é de se esperar que o grupo continue adotando uma estratégia similar em relação aos outros produtos da mesma categoria no futuro. A abordagem da exploração de dia zero do grupo Cl0p sugere que nem todos os grupos de ransomware buscam resultados financeiros imediatos, sendo capazes de adotar uma estratégia de longo prazo para maximizar seus lucros. Os criminosos cibernéticos entendem que atacar várias vítimas simultaneamente em um dado momento produz um impacto maior e o tempo investido é recompensado ao longo prazo.
Projetos de blockchain sob ataque
O blockchain continua sendo um objetivo atraente para os ataques que visam não apenas os protocolos, mas também contas em redes sociais para enganar usuários e roubar seus fundos: projetos em blockchain foram atingidos por criminosos cibernéticos duas vezes mais no segundo trimestre do que no primeiro. Um ataque minuciosamente orquestrado no Discord que tinha como alvo os donos de servidores de câmbio de criptomoeda culminou no prejuízo de US$ 3 milhões. Fingindo serem jornalistas, os criminosos usaram as técnicas de engenharia social para levar os administradores do servidor a verificar suas identidades, seguindo uma suposta"entrevista". Após ser encaminhado para um site malicioso, o token de usuário do Discord do administrador era roubado. Em seguida, os criminosos digitais fizeram login no servidor através da conta do administrador, expulsaram os demais administradores e publicaram uma postagem de phishing.

Contas oficiais do Twitter também foram hackeadas. Assim, os invasores publicaram um tweet falso de sorteio de criptomoedas em nome da KuCoin, prometendo dobrar a quantia para quem enviasse o valor mencionado. Durante 45 minutos em que a conta da KuCoin no Twitter ficou sob controle indevido, os usuários efetuaram operações totalizando US$ 22.600. A plataforma se comprometeu a recompensar todos os danos.
Além disso, ocorreram ataques maiores aos protocolos blockchain. Esses foram efetuados por hackers desconhecidos que se comprometeram a restituir grande parte dos fundos roubados se as investigações sobre seus crimes anteriores fossem suspensas ([1], [2]). Outros foram realizados por grupos de ataques persistentes avançados (APT), como o Lazarus, envolvido no ataque ao Atomic Wallet e no roubo de US$ 35 milhões das carteiras de moedas digitais.
Crescimento contínuo das atividades com ransomware
No segundo trimestre, houve um crescimento de 13% nos ataques de ransomware.

Apesar dos conflitos internos entre os hackers e da perseguição por parte de órgãos de segurança, o cenário permanece complicado nos ambientes de pesquisa, academia, setor público e saúde. O grupo de ransomware LockBit impediu um de seus parceiros de atacar o Keystone SMILES Community Learning Center, uma organização não-governamental focada na educação infantil. Por sua vez, o grupo Cl0p anunciou que tinha apagado todos os dados roubados dos instituições federais nos Estados Unidos após o governo oferecer uma recompensa por entregar qualquer informação sobre o grupo.

No segundo trimestre , constatamos um crescimento de 5 p.p. na presença de empresas de TI no conjunto total de vítimas de sequestro de dados, atingindo 11% em comparação ao primeiro trimestre. O que impulsionou essa tendência foram as vantagens percebidas pelos cibercriminosos: ao comprometerem empresas de TI, eles conseguem acessar as informações sigilosas tanto das empresas quanto de seus clientes e até mesmo facilitar ataques subsequentes, seja na cadeia dos fornecimento ou através de relações de confiança.
Novos nomes estão surgindo entre os grupos ativos de ransomware: 8Base, por exemplo, é uma equipe já consolidada que tem feito ataques no mundo inteiro. Depois de uma fase de inatividade e pouca visibilidade, a o grupo inaugurou um novo site de vazamento de dados e subiu para a segunda posição no ranking de junho em relação ao número de vítimas , logo após do LockBit. Identificado pela primeira vez em março de 2023, a equipe de ransomware Akira aprimorou as estratégias no segundo trimestre , ficando entre os 10 maiores grupos ativos. Mas já, no final de junho, a Avast disponibilizou uma ferramenta de decriptação gratuita para sistemas Windows. Então, o grupo Akira direcionou suas ações aos sistemas Linux, que não possuíam suporte para decriptação.
Ataques únicas também aconteceram no segundo trimestre. Identificado em 23 de abril, o MalasLocker tinha como seu alvo os servidores Zimbra, agiu por meio da exploração da vulnerabilidade CVE-2022-24682 para criptografar os sistemas mas. O grupo exigiu que as vítimas realizassem uma contribuição filantrópica, em vez de cobrar um valor de resgate. No segundo trimestre, o MalasLocker tornou-se o segundo maior grupo em termos de quantidade de vítimas. A maioria das empresas atacadas tinham sua base na Itália, nos Estados Unidos e na Rússia.
Chantagem sem criptografia
O método de chantagem virtual evoluiu: agora, além de criptografar as informações, os criminosos ameaçam publicá-las (um método também chamado de chantagem dupla).
Em resposta, as empresas estão intensificando as medidas de segurança cibernética, adotando protocolos de resposta a ataques virtuais, ferramentas de resposta e monitoramento de pontos de acesso e sistemas de backup. Em muitos casos, o ransomware não causa o impacto esperado, e faz com que o criminoso tenha que se esforçar muito para burlar os sistemas de proteção e implantar o software malicioso. Esse cenário incentivou os criminosos cibernéticos a descartar a etapa de criptografia de dados, optando por utilizar as informações confidenciais roubadas como o principal meio de coação, segundo o relatado da Barracuda. Os ataques realizados pelo grupo Cl0p, que não recorria à dupla chantagem, sugerem que esse método permanece uma abordagem eficiente e atual. Os grupos Karakurt e RansomHouse inicialmente focados apenas em roubar dados para extorquir dinheiro, continuaram suas campanhas no segundo trimestre de 2023.
Outra razão que pode levar as organizações criminosas a desistirem do uso de criptografia e optarem por táticas de exposição dos dados roubados é a disseminação de soluções de descriptografia fornecidas por profissionais em segurança. Por exemplo, a White Phoenix ajuda a recuperar arquivos criptografados através do método de criptografia intermitente bem conhecido. O grupo BianLian continuou sua campanha de chantagem, mas desistiu da criptografia dos sistemas das vítimas porque um decodificador foi publicado.
Ascensão dos spywares
No segundo trimestre , observou-se uma queda de 8 p. p em ataques de malware voltados para as empresas em relação ao trimestre anterior. em comparação com o trimestre anterior. Essa redução deve-se ao aumento em ataques que exploram vulnerabilidades, que atingiram 35%. O uso de malware em ataques contra usuários cresceu 5 p. p.
De acordo com ANY.RUN, o RedLine infostealer tornou-se a principal família de malware, com o aumento de popularidade no segundo trimestre. Conforme pesquisa realizada pela Check Point, o SpinOk encabeça a lista dos malwares mais usados para o Android, que também é um tipo de spyware . A tendência de utilizar esse tipo de malware em ataques contra empresas (21%) e usuários (62%) manteve-se.
No segundo trimestre, a equipe do PT Expert Security Center conseguiu descobrir um novo stealer de informações escrito em Go que busca arquivos (por nome de extensão) em diretórios pessoais e em unidades locais, enviando esses arquivos para o servidor C&C , junto a capturas de tela e conteúdo da área de transferência. O stealer foi distribuído através de mensagens de e-mail de phishing que continham um link para um instalador NSIS. No cenário de ataques corporativos, em 57% deles o e-mail de phishing apresenta-se principal distribuidor de malware. Quando executado, o instalador abre um arquivo PDF e tenta descarregar um conteúdo ao dispositivo do usuário simultaneamente.
No contexto de ataques a usuários, a principal fonte de apresentam os sites disseminação de malware, correspondendo a 40% de todas as ocorrências. A tendência de usar envenenamento de SEO, que descrevemos anteriormente, permaneceu ativa no segundo trimestre. Táticas de envenenamento de SEO e malvertising foram empregadas conjuntamente em páginas web ([1], [2], [3]) para propagar malware.
Tendências de vulnerabilidades
A quantidade de novas vulnerabilidades detectadas a cada trimestre aumenta houve um acréscimo de 7% no segundo trimestre em relação ao primeiro. Conforme os dados liberados pelo NIST dos Estados Unidos, mais de 7,5 mil novas vulnerabilidades foram identificadas. Cibercriminosos continuam a explorar as vulnerabilidades antigas, já que alguns sistemas ainda executam sistemas operacionais e softwares desatualizados. Segue abaixo a lista de vulnerabilidades que foram ativamente exploradas no segundo trimestre:
- CVE-2023-34362. Uma vulnerabilidade da dia zero amplamente explorada no MOVEit MFT que permite que invasores obtenham acesso a arquivos e ampliem permissões no servidor ao injetar código SQL malicioso nas solicitações ao servidor.
- CVE-2023-27350 e CVE-2023-27351. Vulnerabilidades graves foram detectadas nos programas para administração de impressoras PaperCut MF e NG. O grupo Lace Tempest conseguiu comprometer servidores vulneráveis, obter acesso remoto, instalar ransomware e roubar informações confidenciais.
- CVE-2023-2868. Uma vulnerabilidade de dia zero foi identificada no Barracuda Email Security Gateway, associada à validação incompleta de dados recebidos no módulo de verificação de anexos de e-mail. Essa brecha possibilita que os comandos remotos sejam introduzidos através de arquivos TAR maliciosos. O grupo APT, conhecido como UNC4841, tirou proveito da vulnerabilidade para realizar uma campanha de ciberespionagem, enviando anexos maliciosos em massa. A liberação de um patch de segurança para os dispositivos afetados pela Barracuda foi considerada insuficiente: a empresa insiste que os aparelhos comprometidos sejam substituídos.
- CVE-2018-9995 e CVE-2016-20016. Em abril de 2023, pesquisadores da FortiGuard registraram um aumento significativo nos ataques que exploravam a vulnerabilidade CVE-2018-9995 em dispositivos DVR da TBK (com mais de 50 mil tentativas únicas) e a vulnerabilidade CVE-2016-20016 em gravadores de vídeo digital MVPower. A exploração da CVE-2018-9995 viabiliza aos criminosos burlar a autenticação no dispositivo e acessar a rede exposta, ao passo que o aproveitamento da CVE-2016-20016 permite a execução de comandos não-autenticados com ajuda de solicitações HTTP maliciosas. Picos como este indicam que dispositivos antigos com vulnerabilidades estão suscetíveis a ataques anos após a descoberta da vulnerabilidade.
Como medida preventiva contra ataques cibernéticos, sugerimos que você siga as nossas orientações gerais de cibersegurança, tanto no âmbito pessoal quanto no profissional. Levando em consideração os tipos de incidentes que registramos no segundo trimestre de 2023, recomendamos fortemente tratar e-mails, mensagens instantâneas e mensagens recebidas em redes sociais com cautela: verifique o remetente e evite sofrer de um links suspeitos para não cair em ataque de engenharia social ou ter seu dispositivo comprometido por malwares. Seja prudente e avalie bem suas decisões, especialmente diante de ofertas tentadoras. Baixe aplicativos apenas de fontes confiáveis, utilize serviços de backup de arquivos e instale patches de segurança assim que estiverem disponíveis. Além disso, recomendamos investigar a fundo cada incidente relevante para identificar pontos de comprometimento e vulnerabilidades exploradas pelos invasores, certificando-se de que não tenham deixado portas abertas para futuras ações criminosas. Você pode reforçar a segurança ao utilizar ferramentas de segurança modernas, como firewalls de aplicativos web (WAF). Para prevenir a infecção por malware, recomendamos o uso de sandboxes para analisar o comportamento de arquivos em um ambiente virtual e detectar qualquer atividade maliciosa.
Como medida preventiva contra ataques cibernéticos, sugerimos que você siga as nossas orientações 










